HUNRUM!
Uma avó, ao participar de um programa de rádio em que eu estava como convidada para responder perguntas, assim se manifestou: “Longe de mim falar mal da minha nora, pois meu filho tem o mesmo costume; mas eles têm um hábito que eu acho péssimo, e é a partir disso que eu gostaria que você me respondesse… Todas as vezes que meus netos, são dois, falam com a mãe, ela não larga do que está fazendo e afirma: humrum! Sem olhar pra eles e, muitas vezes, sem nada a ver com a pergunta! Outro dia minha neta perguntou pra mãe, enquanto ela fazia uma salada: mãe você acha que todos são corruptos? Ela disse humrum!!! Poxa! Isso não prejudica a criança? Se eu falo alguma coisa, como falei, ela diz pro meu filho que eu adulo muito os meninos e que eles estão ficando folgados…Mas você não acha isso muito ruim? Criança não precisa de atenção e de explicações? Tô muito errada? Devo me calar e dizer humrum também?”
Respondo agora, por escrito, o que já respondi na rádio. Acho muito difícil apontar quem esta certo ou errado em uma determinada situação, pois a história é contada a partir de um ponto de vista de quem se emocionou, pensou e viveu a situação. Se fôssemos conversar com os pais eles teriam, certamente, outra opinião sobre esse mesmo episódio. Contudo, a história é boa para pensarmos juntos o valor da atenção e da escuta na educação e formação de uma criança.
Se tivermos como pressuposto que uma pessoa se torna pessoa em relação com outras pessoas, a qualidade dessas relações são fundamentais. A partir da forma como um adulto-educador se relaciona com a criança é que ela desenvolverá a sua modalidade de aprendizagem. Quando a criança é ouvida, tem direito a pensar e a expressar seus pensamentos, mesmo que sejam bobagens ou absurdos e entende que vale a pena investir no ato de pensar, refletir sobre, deduzir, comparar etc. Quando os educadores da criança são os mediadores entre o ato de observar e pensar e o ato de apropriar-se do conhecimento, essa criança se torna uma conhecedora, mesmo que ela não saiba, será capaz de vir a saber, pois saberá perguntar. O papel do adulto como mediador é favorecer o raciocínio. A mãe poderia perguntar se ela sabia o que era ser corrupto e na seqüência indagar se ela achava que todas as pessoas que ela conhecia não agiam voltadas aos valores éticos. Com essa conversa, a mãe, além de potencializar a pergunta a quem a formulou, favoreceria uma compreensão importante sobre valores e partilha social.
A menina do relato perguntou e obteve uma resposta que não se configura com a verdade. Ela estava pensando sobre o assunto e teve a tendência de generalizar: “Todos são corruptos?”A resposta da mãe, referência da criança, foi “Hunrum!” O que ela aprendeu? O que pensará quando descobrir que não é bem assim? Como ela entende a atenção que a mãe da a ela?
A mãe das crianças, segundo a avó, não gosta quando a avó se mete na educação que ela da à filha, que, no caso, foi a interferência dela: “Não minha linda, muitas pessoas são justas e honestas!”
Alguém tem de responder e dar atenção a essas crianças. Que bom que a avó está disponível e que pena que não é autorizada, pelos pais, para isso. Se eles não cumprem seus papéis, educadores não deveriam impedir que a avó fizesse a sua parte. Mesmo assim, esses pais e suas formas de viver e conviver estarão influenciando seus filhos.
Penso que quando esses pais quiserem conversar com essa filha, ela não saberá ou não terá disponibilidade para isso. Talvez até, ela responda hunrum, já vou!
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