Recuperação final.
Pais, prestem atenção em seus filhos na fase da recuperação de final de ano. A recuperação final, avaliação que decidirá se seu filho passa de ano ou não, tende a ser um jogo cujos interesses e emoções falam mais alto que o dado de realidade. Prestem atenção, por que a questão não é passar de ano ou não, mas aprender o que não foi aprendido. De nada vale passar para o próximo ano sem saber “de verdade” o conteúdo proposto para a série. A mesma coisa para, caso a criança seja reprovada, de nada valerá repetir, simplesmente, o ano escolar. Essa situação é complexa e requer cuidado e atenção.
Tenho certeza de que o que os pais desejam é que seus filhos aprendam e que esses conhecimentos sejam valiosos instrumentos para o desenvolvimento da criança. Passar de ano não garante isso!
Vejo um movimento, tanto das famílias quanto nas escolas, dos professores e alunos em busca de recuperar o ano perdido, ou ainda, recuperar conteúdos não aprendidos. Encurralados, alunos estudam de forma que não estudaram durante o ano todo. As escolas de aulas particulares lotadas, tentam, de forma individual, compensar uma falta que, muitas vezes, vêm lá do começo do ano, que se acumulou ao longo do trabalho letivo.
Será que esses procedimentos trarão resultado? Promoverão aprendizagens? Por que não aprendeu? É a grande pergunta a ser feita antes do processo de recuperar. Dependendo da resposta deverá ser o planejamento das aulas de recuperação. Não aprendeu porque não prestou atenção? Por que não perguntou? Por que não estudou? Não entendeu nada da matéria? Ou partes dela? Tem condições de entender agora? Possui os pressupostos necessários? Nesse exíguo período de tempo ele conseguirá entender o que não entendeu ao longo do ano?
Pode ser que sim, que o resultado seja bom, caso o aluno se empenhe e tenha maturidade para esforçar-se no trabalho de aprender e o professor tenha, igualmente, o compromisso de oportunizar a aprendizagem. Contudo, o que vejo em abundância são pais protegendo seus filhos de uma falta de responsabilidade que durou o ano todo, e professores tentando, com trabalhos, preencher o vazio da falta de entendimento. Vejo pais se batendo como se o fato do filho não ter correspondido ao que se esperava dele fosse algo da família e não do aluno.
Uma mãe me viu no elevador e apressadamente me disse: “Escreva sobre uma equação matemática que a maioria das famílias vive ao final do ano letivo: final de ano do calendário (Natal, Ano Novo, férias, etc)+ mais recuperações escolares = pais enlouquecidos de tanto trabalho”. Perguntei a ela porque o final de ano letivo e a recuperação do filho entravam na equação. Ela olhou-me como se eu fosse um ET e afirmou indo embora: “ Por que é só no final do ano que o pessoal se liga que estudar não é brincadeira! Você não sabe a trabalheira que dá fazer um filho estudar, levar filho pra aula particular, ficar a noite fazendo trabalhos com eles, estudando… Uma loucura!”
Uma loucura mesmo! O movimento tem de ser do aluno e aos pais cabe garantir o espaço favorável. Ninguém faz o outro estudar e aprender! Esses são atos pessoais, no máximo você os motiva e favorece. Um aluno de recuperação final assim me respondeu quando eu lhe perguntei qual a diferença da aula particular para a aula na escola (que também era particular) No que a primeira iria favorecer o seu aprendizado: “Prefiro estudar em aula particular, menos trabalho… Aula só pra mim, com macetes. Mais fácil. Agora pego firme e tiro a nota que preciso.” Olhei para ele e afirmei: “Durante o ano você nem aí com os estudos e agora pega firme… é isso que você esta me dizendo?” Ele riu descontraidamente e afirmou: “É isso aí, você pegou direitinho o esquema!” Perguntei a uma professora particular que dirige um centro de atendimento e ela afirmou: “A grande maioria dos alunos não teve problemas durante o ano, simplesmente eles não estudaram. Só agora estão trabalhando em cima do tema ou do conteúdo.”
E vocês pais, pegaram o esquema?
Tem uma recuperação que é impossível de ser feita em poucas horas. É a recuperação reparadora. Aquela recuperação em que a criança tem de aprender a interpretar o que leu, a entender uma proposta de trabalho, a compreender os princípios matemáticos, ou ainda, perceber-se como membro de um grupo, como aprendiz e responsabilizar-se pelo desempenho do seu papel – trabalho que depende da maturidade e/ou de habilidade. Não se aprende a ler em 5 horas de recuperação, tampouco se amadurece em poucos minutos.
Em verdade, o ano escolar é para ser vivido, dia a dia, e o tempo perdido é irrecuperável. Portanto, não se repete o ano, mas tem de ser outro ano, diferente do já feito e do já fracassado. Por isso é que considero a reprovação de pouca ajuda, pois em raras exceções ela é um novo ano, uma nova oportunidade!
Não acredito em recuperação, quer seja parcial, que seja reparadora sem um bom planejamento, assim como não acredito em reprovação como caminho a ser novamente trilhado! Cada ano em nossas vidas é único e passa a fazer parte do nosso passado. Cabe a nós, educadores, planejar melhores dias que hão de vir!
A recuperação é um olhar para frente! Para a nova oportunidade. A vida está repleta de pessoas que sabem ou não sabem, que buscam aprender e, até mesmo, que ignoram que não sabem… e isso não tem nada com tirar a média ou abaixo dela… Isso é viver e conviver!
Comentários desativados
