Tempo de ser criança.
Estava no salão, numa terça-feira, fazendo as unhas, quando olhei para o lado e vi uma garotinha igualmente fazendo suas unhas. Olhamo-nos, com uma cumplicidade feminina e fui logo perguntando, entre risos: “O que uma criança como você esta fazendo aqui, na manicure?” De forma absolutamente desembaraçada, ela me explicou: “É que no domingo eu fui ao sítio do meu tio e lá eu fiquei cavando na horta, ajudando meu tio a plantar e a colher verduras e minha mão ficou um horror de suja e as unhas então, nem vou falar!” Entre risos, olhou para a manicure e para mim na busca de compreensão. Assustada, perguntei quantos anos ela tinha, se ela estava acostumada a fazer as unhas e se ela tinha gostado de plantar e colher com o tio. Ela me respondeu: “Tenho 9 anos, faço as unhas todas as sextas e AAAAdorei plantar e colher! Mas estraguei as unhas que eu tinha feito na sexta! A mãe ficou louca e com razão, né?”
Em meio a isso, a mãe da menina aproximou-se e foi sentenciando: “Se estragar de novo, vai ter comigo!” Ela olhou pra nós e riu de forma marota. Perguntei para as manicures se muitas crianças pintavam as unhas e elas afirmaram que sim, que pintam os cabelos, que fazem alisamentos, escovas progressivas etc.
Fiquei pensando nas aprendizagens daquela menina que acredita ter errado ao colocar suas mãos na terra, e ao mesmo tempo no prazer que esse “erro” trouxe a ela. Pensei também no conceito que a mãe daquela garotinha tem de criança e de infância e, por fim, o que eu poderia fazer para ajudar.
Movida pelo desejo educativo, perguntei, tentando provocar reflexões, por que era errado uma menina de 9 anos brincar na terra, ajudar o tio, enfim, se divertir de forma diferente do seu cotidiano. Ela afirmou que não era errado brincar, a mãe deixa brincar… o que não pode é sujar ou estragar as unhas. Continuei perguntando de que ela brincava para não se sujar e ela me contou que via televisão, que fazia álbuns, que conversava no MSN, que ia ao shopping.
Calei-me.
Uma tristeza profunda me invadiu ao assistir o ritual de encerramento do trabalho da manicure com aquela menina.
Fiquei pensando na importância das brincadeiras, dos jogos de regras, das corridas, de andar de bicicleta, de passear com amigas em parques, sem desprezar os cinemas, os programas de TV. Lembrei das atividades lúdicas e em grupo que tantas coisas ensinam e ao mesmo tempo divertem.
Pensei nas crianças que deixam de ser crianças antes do seu tempo maturacional e lembrei-me do Rousseau, em Emile, que muito tempo atrás escreveu que “a infância tem sua própria maneira de ver, de pensar e de sentir e nada é mais tolo do que tentar substituir a nossa maneira pela dela.”
Pensei ainda nas crianças que vão para a escola num período e tem de fazer as lições no contra turno e ainda vão pro balé, pra aula de natação, de computação, de Inglês, na psicóloga, na psicopedagoga, na aula particular Ufa!!! Ou ainda, aquelas que têm de cuidar do irmãozinho, arrumar a casa, fazer o almoço, vender coisas no sinaleiro…
Para completar o meu devaneio, e como se não bastasse, ainda ouvi a manicure perguntar: “Hoje você não vai fazer o pé?” A criança, com a mesma desenvoltura, respondeu: “Não, o pé eu não sujei! Eu estava de tênis. Faço na semana que vem!”
Quando essa menina poderá viver o seu tempo infantil?
Crescer e amadurecer é tarefa complexa e pode tornar-se ainda mais se os Pais e Educadores não apoiarem as crianças, dando-lhes o tempo necessário para serem crianças.
Por que nossas crianças precisam amadurecer antes do tempo?!
A pressa é pra quê?
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