Sobre o Tapinha Educativo.
Foi assinado pelo presidente Lula um projeto de lei que propõe modificar um artigo do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente ), proibindo o castigo corporal em crianças e adolescentes. No Estatuto já existe um artigo proibindo maus tratos, mas mesmo assim esta prática continua ocorrendo em inúmeras famílias, que muitas vezes alegam utilizarem a palmada como pedagógica e corretiva. Afinal, qual o efeito causado pela palmada? Para a Psicanálise, o trauma é um acontecimento da vida do sujeito que se define pela intensidade e pela incapacidade que este tem de reagir a ele, tendo efeitos duradouros e determinantes na constituição psíquica. Trata-se de um evento inassimilável. Porém, não se pode pensar no desenvolvimento infantil somente através deste fator. O que ocorre, muitas vezes, é que pais com dificuldade de colocar limites verbais para os filhos acabam utilizando-se da agressão física como uma maneira de mostrar a criança que tal atitude dela não é “correta”. Funciona ? Em alguns casos sim. Provoca traumas ? Em alguns casos, sim. A questão principal a ser analisada aparece exatamente na discussão que está havendo sobre o projeto de lei do governo. Transformando a imposição da lei em pergunta: porque se faz necessário que seja criado um artigo dizendo que não pode usar “de força física que resulte em lesão ou dor a criança ou adolescente.“? Não seria o fato de pensar que alguns pais estão precisando de limites na educação de seus filhos? É preciso a intervenção através da legislação para formalizar o veto a punição física? Que as punições que machucam a criança, utilizadas aleatoriamente podem ser prejudiciais é fato. Mas a violência pode ser transmitida para o filho de inúmeras formas, através de palavras agressivas, do desinteresse do casal parental quanto as seus interesses e realizações, do não-dito e pelo modo que é dirigido o afeto. É a fala do adulto que vai marcar e ser determinante, mas esta não aparece só. É carregada de afeto. O trauma nunca é apenas a situação em si, mas o que fica como representação disso. São as falas, ou a ausência delas, que associadas a cena vivida, dão elementos que tocam na imaginação do sujeito. O que ocorre muitas vezes é que as palmadas acabam tornando-se o meio de comunicação dos pais com os filhos, o que é muito perigoso. O resultado mais eficaz a longo prazo é quando os pais conseguem utilizar-se de suas palavras para impor limites aos filhos, explicando causas e conseqüências de seus atos. Crianças até 05 anos necessitam de palavras claras e objetivas. A contenção física nesta faixa etária muitas vezes funciona, mas não é preciso bater. Segurar a criança, olhando nos olhos dela e dizendo poucas palavras com firmeza é suficiente. É claro que esta medida não fará com que o filho “não desobedeça mais”, porque a criança é um ser em desenvolvimento, que atuará sempre tentando ultrapassar limites existentes em seu caminho, desafiando os pais e desobedecendo inúmeras vezes. Cabe ao adulto dizer-lhe até onde pode ir. E o bom senso é fundamental.
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